domingo, 8 de março de 2009

CRÔNICAS DO REINO I - A OVELHA

Este texto não tem a pretensão de ser um resumo jornalístico. Os nomes de alguns personagens foram alterados a fim de garantir e preservar suas identidades. Qualquer semelhança com fatos reais não terá sido mera coincidência.

Era uma vez – na verdade não aconteceu só uma vez, aconteceram várias e várias vezes e ainda hoje acontece também, mas como tenho que começar suave então fica como se fosse apenas uma vez – em um reino nem tão distante assim, onde o rei pouco mandava e quem deitava e rolava, quer dizer, ditava a ordem, ou melhor, a organização da desordem, eram os amigos do rei; aconteceu uma violência sem tamanho.

Uma pobre camponesa tinha apenas duas ovelhas de estimação e para com estas ovelhas ela era muito cuidadosa e caprichosa. Mas certa vez um homem mau atacou violentamente as duas ovelhas deixando uma delas seriamente ferida e machucada a tal ponto que a vida desta ovelha estava em risco. A polícia do reino descobriu o agressor, prendeu-o e na cadeia ele confessou seu crime.

Agora, a dona da ovelha, levou seu querido animalzinho para os médicos afim de que eles pudessem salvar a vida de seu bem mais precioso; mas a operação que poderia salvar a vida da ovelhinha não era aceita por representantes de um conselho moral importante e influente no reino.

Estabeleceu-se um impasse. De um lado uns apoiando a pobre camponesa na tentativa de salvar a vida de seu tesouro. Do outro lado pessoas solidárias aos membros do conselho moral que agora, diante do iminente procedimento médico, ameaçaram cancelar os vistos de acesso ao reino-melhor de todos aqueles que se envolvessem na operação médica, caso a ovelha fosse mesmo operada.

E foi! Cirurgia realizada. Ovelha salva, camponesa feliz e aliviada com a recuperação da saúde de seu querido animalzinho de estimação. Contudo esta mesma camponesa e toda a equipe médica tiveram seus vistos de acesso ao reino-melhor cancelados pelos membros do conselho moral.

O vil bandido que violentamente atacou as pobres e indefesas ovelhas quase causando a morte de uma delas, este não perdeu o visto.

Moral da história: No reino nem tão distante assim, a depender da decisão dos membros do conselho moral, é melhor não ir para o reino-melhor... lá só entra bandido.

segunda-feira, 2 de março de 2009

SOU

Já vai longe o tempo em que eu era eu mesmo. O tempo em que eu sou eu e pronto já é findo. Se assim não é, veja comigo o que eu agora sou, no que fui transformado.

Sou número, sou letra, sou número e letra junto, sou código de barra; sou usuário, sou login e senha e as vezes contra-senha; sou saldo em banco, cartão magnético, sou foto no crachá, sou pedaço de papel plastificado; sou dado, informação, sou bit em banco de dado; sou página na internet, sou perfil, sou email, sou vídeo no youtube; sou anônimo, pseudônimo, sou convidado, visitante, hacker invasor.

Hoje sou
Talvez eu mesmo.
Amanhã, que sabe?

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

DEPOIS DO DOMINGO

O que acontece logo após os apresentadores das revistas eletrônicas televisionadas dizerem a famosa frase: Boa noite. ?

No sofá da sala há um corpo preguiçosamente estirado, largado e esparramado. Controle remoto em uma das mãos, brinco de trocas os canais na televisão procurando alguma coisa que desperte a atenção, mas nada parece mudar a triste constatação: depois de hoje, amanhã; depois de domingo, segunda.

Segundas-feiras são invariavelmente tediosas, preguiçosas, chatas e longas. Eu não gosto delas!

Segunda-feira, segunda chance, segunda chamada, segundo lugar, carne de segunda, segundo turno... não gosto delas!

domingo, 1 de fevereiro de 2009

ESCREVENDO

Quando escrevo não gosto de barulho. O ruído externo incomoda a melodiosa sinfonia das sinapses neurais no ir e vir de reações químicas e micro-correntes elétricas do meu pensamento voltaico.

Quando escrevo faço uso de papel e caneta. Sou de uma geração que aprendeu a escrever não diante de uma tela de computador, mas utilizando folhas brancas alcalinas. Se tento escrever usando o teclado, trava-me a mão pelo tropeças da mente.

Quando escrevo não fico matutando, maturando ou pensando muito no que escrever, no como escrever ou que palavras devo utilizar. Deixo fluir o pensamento na dinâmica galopante das idéias, palavras, frases.

Quando escrevo faço com paixão e intensidade pois sei que o meu escrever há de encontrar-se com o seu ler. Que este encontro então seja um bom encontro do seu querer com o meu dispor.

Quando escrevo, sou você.

Quando você lê, sou eu.