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terça-feira, 16 de novembro de 2010

UM DIA DAQUELES

Um dia daqueles é todo dia.
E eu que ainda me espanto com toda a sua costumeira grosseria,
Esta falsa alegria de quem canta sem cantar,
De quem sorri sem aquele brilho nos olhos,
De quem com uma gargalhada tenta abafar o grito retumbante de um ser vazio.

Um dia daqueles é todo dia.
Então não há mais surpresa pois sei que hei de encontra-te por entre tuas mentiras,
Nesta falsa aparência de ser feliz.
Ressentindo-se de ser quem és, protagonista do patético espetáculo de tua vida cheia de magoas.

Um dia daqueles é todo dia.
Diante do teu dissimulado bem-querer de quem muito gostaria que não existisse mais ninguém, exceto a si mesmo e no máximo um outrem.
No charco em que vives cercas-te daquilo que lhe convêm,
Esquecendo-se de repartir não as quinquilharias que juntaste de outros tempos, de outras eras, de outros brejos...
Mas nada tens a repartir, isto é fato; dos arremedos de tua vida nada aprendes-te que outros possam querer.

Um dia daqueles é todo dia.
Convivendo com tua ignorância de quem julga muito saber.
Fazendo tudo de qualquer jeito.
Satisfazendo-se em si mesmo.
Comendo amargas bagas do desamor para consigo mesmo.
Tua esperança não vai além do presente instante, tua crença está em coisas, teu deus é você mesmo.

Um dia daqueles é todo dia.
Invariavelmente repleto de tudo o que te contêm: ironia, descaso, vis interesses, pérfidos planos e mentiras.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

PIUÍÍÍÍ

A plataforma apinhada de gente já era um indicativo de que esta seria mais uma viagem desconfortavelmente normal.


O trem nem bem começara a aparecer na curva da linha férrea e o empurra-empurra já podia ser percebido por entre a massa humana.

Lentamente a composição de aproxima. Os freios são acionados. O cheiro de borracha queimada só não é mais forte e desconfortável do que o olor individual somado e adicionado na coletividade depois de um dia todo de árduo trabalho nesta cidade que, no inverno – e estamos nele apesar dos 35 graus – e no verão ainda é chamada de Cidade Maravilhosa.

Finalmente a poderosa, enferrujada e sucateada estrutura metálica para. Ouve-se um longo apito e as portas são abertas. Eu nunca vi pessoalmente mas talvez o estouro de uma boiada seja mais ordeiro e humano – por mais estranho que possa parecer – do que a indescritível cena das gentes tentando entrar, trocando a plataforma repleta e cheia por um vagão de trem idem.

Uma vez alojado no exíguo espaço que cabe – e mal cabe – a cada um, como coração de mãe, sempre cabe mais um, mais dois, três... e a cada estação, em função exponencial, o coletivo toma e adquire forma, significado e contato. Incontáveis são os encontros entre os corpos espremidos.

A massa humana agora mais parece carga humana. Logística perfeita no princípio de maximização do uso do espaço físico a fim de proporcionar a melhor relação custo-benefício para a empresa e o pior serviço para os usuários no tocante a qualidade, segurança, conforto, privacidade, educação, dignidade e respeito.

Sardinhas mortas em latas de metal em qualquer prateleira de mercado vão para o além – ou para o prato mesmo – com mais conforto e dignidade do que a digna população que sob a indigna condição é transportada.

O sacolejo da composição faz ajeitar o populacho fazendo vagar qualquer centímetro quadrado onde um corpo prensado certamente encontrará lugar.

Segue.
Sigo.
Seguimos viagem, nas retas e curvas da estrada de ferro;
no abrir e fechar das portas;
no ir e vir;
no parar, sair;
no chegar,
partir...

quarta-feira, 28 de julho de 2010

CROMOSSOMOS PARECIDOS

Maldita é a herança genética.

Não aquela cromossomicamente transmitida, herdada, no DNA gravada.
Malévola é a carga descarregada de bons sentimentos, sem afeto, sem respeito.

Crias que o tempo cria, que o mundo molda, em pleno desespero existencial na indelével rebeldia de um total desespero, desamor.

Rebentos sem coração.

Farrapos humanos, desalmados, presos ao desassossego de uma mente doente, carente em todos os aspectos e nuances do mais nobre dos sentimentos: o amor.

Formas humanas sem contudo o serem.

Cisternas vazias de educação.
Fartas nascentes de ganância e grosseria a espalhar seu veneno, fazendo matar toda a esperança de um convívio fidalgo, cortês.

Pobres almas aflitas!
Exultai hoje, agora enquanto tendes nas mãos o cetro e na cabeça a coroa sem pensar no dia de amanhã.
Continuai a maltratar os que vos cercam e servem.
Prossegui no trabalho de espalhar laços no caminho de quem se avizinha.
Admirai com satisfação o sofrimento que causais.
Mais uma vez digo: exultai hoje, agora!
Contudo, temei e tremei diante do dia depois de hoje, quando tiverdes que prestar contas.

Orai desde agora por vossas almas para que delas alguém se compadeça e que vossas memórias não sejam apenas a fria lápide esquecida em um campo de paz.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

TEMPOS MODERNOS

Um dos maiores desafios do presente século e para os anos vindouros é o que diz respeito a qualidade de vida e mais especificamente como alimentar uma população que não para de crescer.


Os avanços na produção de alimentos mais resistentes as pragas, as adversidades climáticas e a criação em larga de seres biológicos comestíveis – quem nunca comeu um hambúrguer de carne de “ave”? – fez e faz com que a geração fast-food aumentasse e ainda aumente a cada dia.

Crianças são incentivadas pelos próprios pais a consumirem uma alimentação mais moderna composta de lanches saborosos porém potencialmente fatais. Até mesmo as opções ditas “naturais” não passam de coquetéis venenosos pois apresentam em sua composição níveis quase fatais de açúcar, sal, conservantes e hormônios.

O resultado desta alimentação moderna, prática, saborosa e quimicamente enriquecida com vitaminas e também veneno é visível nas ruas e consultórios médicos. Para citar apenas um exemplo dos efeitos desta comida moderna: o aumento no número de pessoas obesas tem feito crescer a busca por tratamentos, dietas e até terapias alternativas por parte daqueles que se tornaram viciados em uma alimentação desequilibrada.

Alergias; alterações no metabolismo; distúrbios hormonais; baixa resistência imunológica; diabetes; pressão alta; disfunção hepática, renal, pulmonar, circulatória, cardíaca, gástrica e até alguns distúrbios de comportamento são alguns dos resultados que as embalagens coloridas não mostram ao, as vezes, incauto consumidor.

Se os alimentos industrializados pouca ou nenhuma confiança inspiram para promover a saúde e a segurança alimentar, o que dizer dos alimentos industrialmente naturais?Os produtos hidropônicos que, teoricamente, sem nenhum pesticida ou agrotóxico no seu desenvolvimento são os mais recomendados, já não mais inspiram tanta confiança por parte dos consumidores. Diversas pesquisas já comprovaram que na aparentemente pura e cristalina água que irriga e alimenta tais produtos, são acrescentadas doses de “complementos” e “suplementos vitamínicos” afim de auxiliarem no desenvolvimento “sadio” da plantinha.

As carnes e os produtos derivados de animais também já, há muito tempo, pouco tem de saudável e muito oferecem de risco a saúde. O frango e o peru são puro hormônio. A produção de ovos é quimicamente “incentivada” em galinhas confinadas, estressadas e que depois de mortas viram suculentos pedaços de asinhas, coxa, sobrecoxa e peito congelados.

O leite da vaca vem em caixinha com a adição de conservantes para garantir o prazo de validade. A carne vermelha, tal qual as carnes brancas, não passam de suculentos bifes de hormônios que ajudam muitíssimo o aparecimento dos mais variados tipos de cânceres no aparelho digestivo.

Ufa, o peixe está salvo! Ledo engano. Já é comum a pesca em grandes fazendas onde os aquáticos animais vivem confinados em grandes piscinas e são alimentados a base de ração para uma engorda mais rápida, desenvolvimento acelerado e retorno financeiro garantido para o fazendeiro. Os peixes de alto-mar também já sofrem com o elevado nível de poluição, graças a toda a sorte de sujidades que jogamos em nossos mares, na vil e vã tentativa de maximizar o adágio popular que diz: “O que os olhos não vêem, o coração não sente.”; esquecendo-nos de que nossa saúde e qualidade de vida também depende dos oceanos.

Vivemos em um tempo moderno onde a busca por uma alimentação realmente saudável tem sido tarefa cada vez mais difícil. Nunca como agora a horta da “casa da vovó” faria tão bem a saúde de tantos que, sem se aperceberem, tem sido consumidos – literalmente – por esta alimentação moderna.


domingo, 4 de julho de 2010

NA ERA DO SABER

O século passado fez multiplicar os Saberes, as Ciências, as tecnologias, os Conhecimentos e mais uma infinidade de outras situações do dia-a-dia nosso de todo o dia, pleonasticamente repetitivo.


O presente século nem bem começou e o que no final do ano passado era novidade hoje já é obsoleto, ultrapassado, velho, arcaico. Uma nova geração de pessoas e tecnologias está nas ruas, nas casas, nas escolas e nas empresas experimentando e vivenciando situações com as quais certamente nossos pais nem sequer chegaram a sonhar.

Dados e informações transitam de um lado a outro do mundo e são copiados, repartidos, multiplicados e divididos aos milhares, para milhões ávidos em saber, não se sabe bem o quê ou para quê.

Hoje é preciso saber.

Que o escritor, morreu.
Que a igreja, escondeu.
Que a terra, tremeu.
Que o atleta, venceu.
Que o outro, perdeu.
Que a jovem, envelheceu.
Que o rico, empobreceu.
Que o gordo, emagreceu.
Que o candidato, prometeu.

Que o político, mentiu.
Que a prova do crime, sumiu.
Que a floresta, diminuiu.
Que o vulcão, explodiu.
Que a economia, expandiu.
Que a ex-ministra, saiu.
Que a água, subiu.
Que a cidade, ruiu.
Que o cantor, assumiu.

Que a cantora, beijou.
Que a novela, terminou.
Que a atriz, separou.
Que a revista, errou.
Que a doença, avançou.
Que a bola, não entrou.
Que o brasileiro, chorou.
Enfim, que o mundo... mudou.


“examinai tudo. Retende o que é bom” I Tessalonicenses 5:21


sábado, 20 de março de 2010

PELA HORA DO PLANETA

A Hora do Planeta é um movimento mundial promovido por uma ONG afim de chamar a atenção do mundo para questões relacionadas as mudanças climáticas e, em um nível mais elevado, pensar nas questões de conservação de todo o planeta.

Pois bem, este movimento prevê que no dia 27 de março deste ano algumas importantes cidades do mundo apaguem as luzes de monumentos e edifícios públicos e que o cidadão comum também se sinta sensibilizado e motivado a colaborar com tal iniciativa fazendo a sua parte que consiste em ficar por 1 hora no escurinho meditando na importância de sua contribuição individual para a coletividade global, etc, etc, etc...

Cá entre nós, cariocas, assim bem popular mesmo: E o quico com isso, hein?

Já dou minha contribuição de forma compulsória, pra bem da verdade, para o raio desta Hora do Planeta por obra e graça, quero dizer, desgraça dos péssimos serviços da Light - empresa concessionária de serviços de energia elétrica aqui da cidade do Rio de Janeiro - que, não mais de vez em quando mas, de vez em sempre me deixa no mais completo breu.

Quando a luz se vai é hora de um verdadeiro ritual: corre para puxar tudo quanto for fio de tudo quanto for tomada, pois quando a energia retornar – com muita sorte em menos de 24 horas – a possibilidade de queimadeira geral nos eletrodomésticos é altíssima. Realizada a prova do “puxar-da-tomada” é hora do “cadê-a-vela”. Tropeçando aqui e metendo o dedão do pé na quina de um móvel ali, você consegue achar o, já item da cesta-básica carioca, saquinho de velas e dependendo da intensidade de seu medo do escuro seus vizinhos, que senão estivessem em igual situação, poderiam pensar ter se transformado sua casa em algum centro religioso tamanha a quantidade velas acessas.

Ainda não é chegado o dia de A Hora do Planeta e o que eu já economizei de energia elétrica pelo desserviço da prestadora de serviço daria para iluminar a praça perto de casa que vive as escuras, cheia de marginais ávidos para que eu e tantos outros, na hora de A Hora do Planeta apaguemos as luzes e em meio a reflexões energéticas e conservacionistas, eles nos permitam também refletir sobre quão efêmero é o conceito da posse de bens, quão voláteis são as promessas na área de segurança pública e quão insegura é a vida.

Na criação do mundo Deus disse: “Haja luz”.
Pouco antes do fim do mundo a Light diz: “Apague a luz.” E temos mais um apagão no Rio de Janeiro!

Mas apagão, ou melhor, apagões – voluntários ou compulsórios -, não são apenas manifestações de preocupação ecológica ou atestado claro e evidente de incompetência nos mais variados níveis do setor elétrico, na matriz energética brasileira; apagões são também exercícios de pura democracia onde ricos e pobres sofrem e são tratados igualmente, ou quase isso. Veja comigo:

Durante o apagão eu, pobre, rapidamente terminei meu banho sob o chuveiro enquanto o Alcaide, rico, pediu para sua empregada trazer as velas, os sais de banho e ficou de molho, relaxando do dia tenso no escritório; Eu, corri para o telefone e gastei horas ouvindo uma musiquinha irritante esperando ser atendido pela empresa de energia elétrica enquanto o Alcaide ainda repousava em seu banho de beleza; Eu, sob a luz de uma única vela, debaixo de um calor insuportável, sem ventilador ou ar-condicionado e com nuvens de mosquitos (os da dengue!!) ao meu redor ainda aguardo para ser atendido pela empresa enquanto o Alcaide já terminou o seu banho e esta confortavelmente instalado em seus aposentos, sob refrigeração, vendo o telejornal que anuncia viver a cidade do Rio de Janeiro mais um apagão.

Ah, sim! Ele, o Alcaide, mora em um prédio nobre, de uma rua nobre, em um bairro nobre, com vizinhos nobres - sem nenhum pobre - e mandou instalar um potente gerador para garantir nobre energia aos nobres, pobres!

Gaste mais energia pensando nas pessoas ao invés de gastar pessoas para economizar energia.

sexta-feira, 5 de março de 2010

NOTA DE FALECIMENTO

Com tristeza e pesar que comunico o falecimento da Amizade.

Ela morreu em decorrência de falência múltipla e infecção generalizada agrava nestes últimos dias pelo descaso. Seu desejo foi não ser velada para evitar o constrangimento do não comparecimento de ninguém. Seu corpo repousa inerte no cemitério da saudade.

Com o pouco de energia e força que lhe restava, pouco antes de expirar, escreveu esta pequena nota e pediu que fosse divulgada.

“Meus queridos, eu que já fui robusta e forte, cá estou exaurida de minhas forças pelo vírus do descaso e da omissão que nestes tempos modernos tem se espalhado velozmente. Custa-me muitíssimo escreves estas poucas linhas, mas como meu último desejo peço que atentem para o que tenho a dizer:

Não deixem que o excesso de zelo com os afazeres diários tirem de vocês a vontade de falar com seus amigos. Reservem tempo para dar sinal de vida seja com uma ligação, uma carta, um email ou, melhor ainda, pessoalmente.

Não cobrem que os teus amigos te procurem; procure você por eles.

Jamais tratem seus amigos com indiferença, arrogância, prepotência ou preconceito de qualquer espécie.

Saibam valorizar o que teus amigos têm de melhor

Reconheçam nas possíveis diferenças entre você oportunidades de mútuo aprendizado.

Exercitem o perdão genuíno.

E lembrem-se: sempre façam contato. Amigos gostam de abraço.”

Então ela, a Amizade, assim que terminou de escrever me entregou caneta e papel, seus lábios ainda esboçaram um lindo sorriso, respirou profundamente, cerrou os olhos e adormeceu.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

MÁXIMAS E MÍNIMAS

Desconfie de quem só sabe tecer elogios. Com a boca louva-te pelas ruas, mas com a língua te apunhala pelas costas.

Não faça planos com quem fala muito ‘eu isso, eu aquilo’ pois neste discurso não há espaço para o ‘nós’.

Cada um de nós sabe aonde lhe aperta o calo, mas somente alguns têm coragem de andar descalço.

Verdades nunca são ditas ao pé do ouvido mas sim de frente, olhando nos olhos.

Quem trata os outros como bens de consumo acabará falido e esquecido por conta de sua própria insaciedade e insanidade.

Quem fala da vida dos outros expõe a própria, primeiro.

Quer saber o que alguém pensa de você? Contrarie esta pessoa e ela revelará tudo.

Nunca abra a boca sem antes abrir os olhos para ver, os ouvidos para ouvir e a mente para entender. Do contrário, será tomado como tolo.

Antes de apontar o defeito dos outros, certifique-se de não estar você mesmo diante do espelho.

Carência afetiva é igual doença para plano de saúde: pré-existente e não tem cobertura.

Cuidado com a paixão fulminante. Você pode sair dela, no mínimo, chamuscado.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A PRIMEIRA GOTA

De costas para a rua e olhando fixamente para o velho portão de ferro pintado de cinza, ele não esboçava nenhuma reação. Não se sabe ao certo por quanto tempo ele ficou ali, parado em frente ao portão de sua casa; molho de chaves em uma das mãos e na outra um saquinho de papel com seis pãezinhos que ele acabara de comprar na padaria da esquina.

Homem de poucas palavras, ele sempre entrava apressadamente em sua casa. Tinha o semblante entristecido pelas circunstâncias da vida, não era dado a muita interação com os vizinhos, exceto os habituais “bom dia” e “boa noite” e nada mais. Dele não se sabia nem o nome.

A vizinhança que por estas horas, todos os dias, fazia na pacata rua residencial uma verdadeira bagunça com crianças ainda com o uniforme das escolas correndo de um lado para o outro brincando de pega-pega; senhores animados discutindo o futebol do fim-de-semana; jovens donzelas prontas a estender olhares para o primeiro rapagão que passe; senhoras já nem tão jovens trocando receitas de bolo, receitas de tricô, impressões e fatos dos capítulos de ontem das telenovelas e da vida de outrem e mais adiante uma senhorinha passeando com o seu bichano enquanto, do outro lado da calçada, um pitboy tenta segurar seu pitbull; rapidamente vai se recolhendo em suas casas.

Uma gota gelada cai por entre seus olhos tirando-o assim de seu transe contemplativo e ele então percebe que está completamente molhado pela chuva que cai intensamente.

Uma das crianças que ate pouco tempo antes brincava – seca – de pega-pega, corre na direção dele e muito rapidamente, com as duas mãozinhas, segura no braço dele e diz bem alto: “Peguei, tá com você!” e sai correndo o mais rápido que pode para junto das outras crianças que agora, molhadas, observam o homem então vira-se bem devagar em direção a elas, semblante franzido, lentamente ele deixa o saquinho com os agora encharcados seis pãezinhos em um canto, perto do velho portão cinza, coloca o molho de chaves em um dos bolsos da calça, abre um sorriso e junta-se aos pequenos em sua algazarra pueril.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

RASCUNHOS DO MEU CARNAVAL

É quase fim de festa.
Nas praças, becos, vielas, ladeiras, ruas, avenidas, aonde quer que haja uma batucada, um ziriguidum qualquer, a massa de foliões ainda se aperta, se espreme, canta, samba e dança (ou pula, como preferem alguns) animadamente.

A comissão de frente já fez sua última evolução juntamente com as demais alas da escola, o último carro alegórico já está de volta no barracão, a porta-bandeira recolheu o pavilhão, o mestre-sala deu seu último rodopio, da bateria já soou o último repique do surdo, a baiana fez seu último giro, o alegre passista tocou o pandeiro pela última vez enquanto a sorridente mulata fazia seu encantador requebrado com os quadris para um último flash na avenida.

Silêncio...

Na escadaria da passarela do samba, deitado com o corpo entre um degrau e outro o folião desfalecido, tomado pelo cansaço da folia, adormece. Para onde a vista alcance o que se vê são as sobras da festa de Momo: confetes e serpentinas, plumas e paetês, adereços e fantasias, máscaras e mascarados, pierrôs e colombinas.

Minha introspecção só é interrompida pelo cantarolar desafinado do sorridente gari que, entre um varrer as cinzas da festa e outro, faz da vassoura sua parceira de avenida, de samba, sua mulata.

Cantarolo com ele o samba de sua escola do coração; gentilmente cumprimento a sua “mulata”, pego meu chapéu e saio pela avenida, agora vazia.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

RIO 40 E TANTOS GRAUS

Tenho experimentado as delícias, venturas e desventuras de viver o auge do verão carioca com o que ele tem de melhor: o sol. Não falo de um solzinho brando, ameno que surge plácida e docemente no horizonte, falo do astro-rei que tem feito torrar a paciência de muitos, inclusive a minha.

Acordar com sol “batendo” na janela tem quase o mesmo efeito de uma exposição direta no melhor estilo praiano então, como não tenho ar refrigerado no aposento onde repouso minha singela e modesta massa corpórea para o descanso, durmo de sunga de praia porque se perder a hora de levantar pelo menos já pego uma cor, já consigo um bronzeado matinal.

A ida para o trabalho ou uma mera saída de casa é parte do suplício do munícipe condução, seja ela de que tipo for, com ar-condicionado é milagre e quando passam vale tudo – tapas, socos, pontapés, dedo no olho, etc, etc, etc – para conseguir entrar primeiro e garantir um lugar sentado. Se você não conseguir fazer a viagem sentado dentro do “frescão” – como são carinhosamente chamados os ônibus que tem sistemas de ar-condicionado – conforte-se de pelo menos ser encoxado sob refrigeração.

Mas frescão é milagre e milagre só na igreja então resta o bom e velho, sempre velho, “quentão” mesmo. E vamos que vamos suando em bicas, sendo encoxado aqui, apertado ali, sacolejando feito pipoca no óleo quente. E se alguma coisa está ruim sempre pode piorar, o trânsito da um nó e tudo para e nada anda; no engarrafamento monstro o único que anda é o camelô de um lado para o outro anunciando a plenos pulmões o seu produto: “água, água mineral!”

O trabalho é oásis ou continuação do suplício infernal, tudo depende da quantidade de btu’s ou rpm’s. sair de baixo do ar-condicionado ou da frente do ventilador só se for em caso de extremíssima urgência-urgentíssima, como por exemplo, para atender ao chamado da mãe-natureza. E aí então você pode até levar uma folha de papel, um pedaço de cartolina, um leque, enfim, qualquer coisa que possa proporcionar-lhe algum frescor durante a atividade biológica. Cá entre nós: de mais-a-mais, nestas horas um ventinho circulando é bom para disfarçar o budum, né?

Hora do almoço é sempre surpresa. Onde comer sob um calor de fritar ovos no asfalto? Muitos restaurantes mantêm a tradição e oferecem os pratos mais “absurdos” neste calor: feijoada, leitãozinho a pururuca, peixe frito, buchada de bode, strogonoff. Mas se você achou isso “pesado” demais sempre existe uma opção mais “leve”, mais saudável, mais natural: sopa, e quente!! Tem maluco pra tudo mesmo.

No pouco espaço de tempo que resta pós-almoço e pré-trabalho vespertino, o negócio é procurar um lugar que tenha ar-condicionado e matar o tempo ali. Nesta busca qualquer lugar é válido: shopping, banco, farmácia, loja de doce, repartição pública, magazines, centro cultural, livraria, igreja, etc, etc, etc.

A volta para casa é tão cruel quanto a ida para o trabalho mas agora já não mais importa o aperto, o desconforto, a encoxada, o engarrafamento ou o camelô, o único que parece feliz no fim de um dia tão quente, que continua a anunciar a plenos pulmões o seu produto: “água, água mineral!”

Quero descanso, estou um bagaço.

Vou dormir de sunga porque amanhã, por certo, vai dar praia de novo... na minha cama.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

VELOCIDADE CONTROLADA

Ando sem paciência
Então, corro.

Quando corro, atropelo.
Quando atropelo, machuco.
Quando machuco, sofro.
Quando sofro, sinto.
Quando sinto, penso.
Quando penso, reflito.
Quando reflito, comparo.
Quando comparo, analiso.
Quando analiso, percebo
E quando percebo é que descubro que sou igual a você.

Então não me censure
Nem me multe por dirigir a mais de cento e vinte nesta estrada;
Caminho,
Meio e fim
Que me afasta e aproxima de ti.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

NA ESQUINA

Listra branca.
Faixa preta.
Zebra do asfalto nesta selva de pedra e pó.

Tronco de metal sem vida e cinza,
Sem galho, sem folha, cuja raiz é morta.
Tu és placa e torta.

Corpos de metal
Presos ao seringal.
Dragões a explosão.
Barrigas nunca vazias.
Fauna de estranhas formas
Carcaças doentes.
Disformes.

Varetas
Troncos e paus.
Estacas paralisadas
Farrapos ataviados.

Vidas guiadas por cores ao avanço do primeiro sinal.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

SEDE DE VINGANÇA, CEGA

O que tem em comum: Londres, Berlin, Bagdá e eu?

Não sabe?! Explico: as cidades e eu fomos alvo de intenso bombardeiro. As primeiras em conseqüência de hostilidade e beligerância e eu, eu fui alvo errado de um ataque descompassado e míope de um alguém, pessoa cega, com sede de vingança.

O ataque motivado por palavras escritas encontrou em uma leitura limitada e interpretação equivocada e preconceituosa o combustível ideal para a explosão que, sem aviso prévio, caiu sobre mim.

Fiz a tentativa de armistício e foi então que o dizer vulgar, reles, de baixo calão, chulo, leviano e frívolo foi disparado como uma metralhadora. Triste constatação da notória e visível frustração e decepção pelo desperdício de energia vital empregado em um ataque cego desde a sua concepção. Parece haver no mundo e na sociedade pessoas de alma, espírito e comportamento beligerante.

Quem me atacava, ao perceber sua própria cegueira, por conta de sua sede revanchista, só restou capitular e pedir desculpas pelo que disse, escreveu, fez, pensou.

Cega é a vingança que também cega.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

TERCEIRA PESSOA

Ele.
Ela.
Você.

Pronome definido.
Indefinidamente usado para qualquer um.
Pouco importa o sujeito
Sujeito que tanto faz.
Desde que sempre em terceira,
O que mais quero é paz!

Se não gosto, é dele.
Mas se gosto, é de mim.

Se não foi feito, foi ele.
Se foi bem feito... enfim.

Terceira é todo mundo,
Terceira é mais que um.
Terceira é tanta gente....

terça-feira, 18 de agosto de 2009

CENTIMETROSSEXUAL - Comportamentos de um homem moderno

Já vai longe e distante o tempo em que as únicas preocupações do universo masculino eram a perpetuidade de sua espécie e o valor da remuneração para o sortimento próprio e também de sua família.

O mundo avança, prossegue, evolui, se desenvolve e tudo o que nele há parece, algumas das vezes, junto com ele, também avançar, prosseguir, evoluir e se desenvolver.

O final do século passado e o início deste fez surgir novos valores, posturas e comportamentos nas pessoas e talvez o mais afetado por estes novos paradigmas sociais tenha sido o homem e o seu universo Macho-Masculino-Viril. Sem medo do que podem pensar as outras pessoas, este novo homem agora demonstra emoções, chora, abraça, beija, é afetuoso; cuida do seu corpo, é vaidoso, faz academia, musculação, depilação, bronzeamento artificial, freqüenta salões de estética com a mesma regularidade com que freqüenta a quadra de futebol da vila; tem estilo, usa roupa da moda, acessórios modernos, segue tendência, cria tendências.

Mas, contudo, entretanto, todavia este novo homem que ficou conhecido como metrossexual também evoluiu muito rapidamente para um tipo bem peculiar o centimetrossexual. Um homem com todas as características do metrossexual – ou não – mas que é bem mais competitivo com seus companheiros de gênero. Eis algumas situações onde o homem centimetrossexual se revela. Leia com atenção e descubra se você é um centimetrossexual ou se você conhece alguém que seja.

Situação 1 – Visita ao sex-shop

O centimetrossexual, via de regra, jamais entra em uma loja de artigos eróticos por temer, como o diabo foge da cruz, ser confrontado com um “bimbo-lover”, uma “trosoba”, uma “guaça”, um “peru” de plástico maior do que o dele.

Para o centimetrossexual a pura e simples imagem visual de algo mais comprido ou mais grosso ou mais colorido ou com mais funções acessórias do que ele tem ou pode oferecer “in natura” – ainda que não faça uso de seu instrumento – faz gelar o corpo todo e corar a face.

O pior adversário para este novo tipo de homem é ele mesmo. Como uma evolução natural do comportamento do já antigo, antiquado, obsoleto e arcaico metrossexual, o centimetrossexual apresenta características bem semelhantes ao seu protótipo anterior, contudo não conseguiu ainda resolver e elaborar as questões ligadas a fixação fálica, seus complexos e síndromes correlatas.

Situação 2 – No banheiro

O homem sempre quis saber o que as mulheres fazem “em grupo” no sanitário. Qual seria o motivo atrás do motivo de irem, invariavelmente não sozinhas, ao banheiro? Pois bem, isso você terá que perguntar para uma delas. Se você que agora lê este texto é uma destas que vai em “excursão” ao sanitário... não conte! Mantenha o suspense, os homens gostam de um certo mistério. Mas enfim, não estou aqui pra falar do banheiro feminino e sim do banheiro masculino e tenho que explicar o segundo comportamento típico do centimetrossexual, este novo homem, o homem do século XXI.

O processo se desenrola assim. A bexiga está cheia, o cara já começa a demonstrar um frenético cruzar-e-descruzar de pernas. Segura o quanto pode, mas chega um dado momento em que já não pode mais então é procurar o primeiro banheiro disponível para alívio do popular “número 1”. Aí começa o alívio físico e a tortura psicológica.

O centimetrossexual se posta em pé diante do mictório e enquanto relaxa e deixa a natureza agir, percebe outro cidadão em igual situação. Uma rápida olhada de canto de olho. As pupilas se movem rapidamente para a esquerda e para a direita e levam ao cérebro um amontoado de informações. Agora a atenção não é mais no xixi, o foco passa a ser o cara ao lado. Eis o dilema: olhar ou não olhar? A pergunta vai se repetindo a cada nova sinapse cerebral a uma velocidade assombrosa e nem bem esta primeira pergunta foi respondida pelo cérebro e outras já surgem pipocando e estralando dentro da cabeça do centimetrossexual que agora confuso de tantas questões tem que lidar com o principal questionamento: Mas será que o tamanho do meu é normal? O dele é maior ou menor? Se o dele é maior. Que cara de sorte. Se o meu é maior... hehehe... eu sempre soube!!

Tudo acontece muito rápido. O xixi já acabou. A última gota já caiu sobre o sapato. Aquela chacoalhada básica já aconteceu e então, atormentado pela dúvida, o centimetrossexual olha na direção do outro do outro ao lado. Seu cérebro então exclama: Céus, cara! O que você fez? Você olhou para o “peru” de um outro cara!! Ninguém pode saber disso. O que vão pensar de você?

O pobre coitado recolhe o seu apressadamente e tão rápido como entrou, sai do banheiro. Com sorte consegue se lembrar de lavar as mãos antes de sair.

E se estas situações não fossem bastantes e suficientes, este novo homem, o centimetrossexual, tem que conviver com a peja da indelével lembrança do calendário que aponta para o século XXI na famigerada sina de por para baixo quem vive a desdita sorte de ter menos do que o presente século.

sábado, 2 de maio de 2009

NEM TÃO PESADA ASSIM

Um amigo de longe, enviou um email com algumas imagens e imagens contam história e esta era mais ou menos assim...

Conta-se a história de um homem, mas poderia também ser uma mulher, sobre quem foi posta uma pesada cruz feita de madeira e, depois de posta por sobre os ombros o homem recebeu orientação de que caminhasse pela estrada que à sua frente estava.

Ao dar os primeiros passos pelo caminho o homem percebeu que não estava sozinho e que outras pessoas, homens, mulheres e também crianças, caminhavam ao lado dele e cada um tinha também posta sobre os ombros, cruz. Entretanto, quanto mais caminhava, mais o homem sentia o peso da carga. Ele atônito olhava ao redor para ver se alguém poderia ajudá-lo a carregar a sua cruz ou ainda para ver se alguém, assim como ele, estava sentindo o pesar do fardo; não encontrando quem o pudesse ajudar, parou de caminhar, depositou sua cruz ao solo e erguendo a voz ao céu disse: “Senhor, esta cruz é muito pesada, posso serrar um pedaço dela?”. O Senhor tentou dissuadi-lo desta vontade, mas foi em vão; então carinhosamente, permitiu que o homem serrasse um pedaço da cruz afim de torná-la mais leve. E o homem serrou um pedaço de sua cruz.

Voltou então a caminhar mais disposto e feliz. Entretanto, conforme a continuava a caminhar pela estrada, a cruz então parecia ser, outra vez, pesada demais e mais uma vez parou, deitou a cruz no caminho, reclamou do peso que carregava e serrou mais um pedaço. Agora sim, tomou a cruz nos ombros e continuou a andar. O caminho não mais parecia penoso e nem o fardo demasiadamente pesado.

Mais alguns passos e então o homem se deparou com uma fenda profunda e larga no meio do caminho. Surpreso e atônito procurou um atalho para que pudesse desviar da fenda no caminho e continuar sua jornada, mas em vão. Foi então que ele percebeu como as outras pessoas estavam transpondo a fenda. Elas deitavam, cada uma a sua própria cruz por sobre o abismo e esta servia-lhes como ponte afim de transporem o abismo.

O homem agora tomado de tristeza e remorso percebe que a cruz que lhe foi posta nos ombros, no começo da estrada, era na medida exata para que ele pudesse atravessar o abismo. E fim da história.

Talvez você esteja vivendo algum momento que possa parecer ser pesado demais. Eu estou vivendo um momento que me parece ser pesado demais, mas tenho a certeza de que o que hoje parece ser demais há de fazer de mim uma pessoa melhor, há de fazer por mim coisas incríveis e há de ser para mim, ponte.

Obrigado amigo Paulo pelo email.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

INCLUSÃO

Em visita a uma feira voltada para o segmento dito antes deficiente, agora portador de necessidades especiais, constatei e atestei para meu espanto, felicidade e satisfatória surpresa que neste mundo plural, diverso e diferente, inclusão tem mais a ver comigo do que com quem eu tenha rotulado e classificado como “especial”, senão, pensemos sobre o assunto...

Hoje é socialmente responsável e bonito falar e dizer e propagar e anunciar a tal da inclusão; mas o que é inclusão? Para quem é a inclusão? Para quê incluir?

Eis a minha definição pessoal que escrevi depois de ler muitos artigos e tratados e matérias sobre o tema da inclusão. Chego a conclusão que inclusão é o esforço que a sociedade através de suas instituições representativas - como por exemplo: empresas, sindicatos, associações, escolas, dentre outras – faz no sentido de disponibilizar e tornar acessível à toda pessoa que de forma natural ou adquirida tenha uma necessidade especial, incapacitante ou não, definitiva ou temporária, o usufruto pleno de sua cidadania, aqui incluído seus direitos e deveres.

Tendo como base a definição acima e em busca de conhecer melhor este universo aventurei-me pela 8ª Reatech (Feira Internacional de Tecnologias em Reabilitação, Inclusão e Acessibilidade) e eis minha percepção de tudo o que vi do dito mundo das pessoas deficientes ou pessoas portadoras de necessidades especiais ou pessoas especiais.

A maravilha da diversidade já podia ser vista na entrada. Centenas – sem nenhum exagero ou hipérbole – centenas de pessoas confortavelmente instaladas em cadeiras de rodas eram só sorrisos e poses para registro fotográfico diante do painel com a logomarca da feira. Um cego com seu cão-guia ditava seus dados pessoais para uma jovem senhora afim de efetuar seu cadastro e receber seu crachá de acesso. Enquanto isso, do lado desta senhora, um outro grupo de pessoas animadamente se confraternizava ao “som” de suas mãos e expressão corporal. Senti-me inteiramente diferente, deficiente, pois não tenho habilidade para usar a cadeira de rodas; tenho dificuldade para confiar nas pessoas, que dirá confiar em um cão para me guiar e a forma usual de minha expressão é oral e limitada, desprovida da beleza plástica da expressão do corpo e mãos.

Fiz meu cadastro sentindo-me como um estranho e entrei no espaço da feira.

Ajustei meu localizador interno – o tal do GPS – e parti para uma aventura e tanto. O primeiro corredor que visitei foi o do artesanato e uma infinidade de formas e expressões artísticas estavam bem diante de meus olhos. Minha atenção foi desperta para o trabalho fantástico de um jovem que pinta quadros, belas paisagens e imagens, usando a boca e enquanto meus olhos pareciam hipnotizados com a destreza deste artista, meus ouvidos captaram o som de uma música... alguém canta e canta muito bem. No final do corredor, sobre um palco uma jovem cega – sei que era cega porque ela mesma, ao apresentar-se no intervalo entre uma canção e outra, disse ser – enchia o espaço com sua interpretação viva e brilhante de grandes sucessos de nossa MPB; enquanto sua voz ecoava como num colorido, toda a qualidade vocal e musical poderia ser também vista graças às mãos e expressão de uma intérprete da Língua Brasileira de Sinais. A música podia ser ouvida e também vista. Eu vi a música. Investi uns bons momentos para acompanhar este belo dueto de uma só voz.

Prosseguindo entre os corredores da feira tomei conhecimento de uma infinidade de serviços e produtos pensados especificamente afim de atender desde as mais simples até as mais complexas atividades do dia-a-dia de toda a pessoa, especial é claro. Contudo ainda que eu tenha ficado boquiaberto com as soluções da mais rudimentar até a mais tecnológica, o que deixou em mim uma marca, um sinal profundo, foi ver pessoas felizes. Ah sim, estavam em cadeiras de rodas, andavam com o auxílio de muletas, usavam bengalas para ver, eram guiados por cães, conversavam com as mãos – estas eram as pessoas mais felizes que vi na feira.

Por pouco mais de 2 horas estive submerso em um mundo onde o diferente, deficiente e portador de necessidade especial fui eu. Desprovido, talvez, da coragem e felicidade em viver que vi estampado em cada rosto, se como eles tivesse eu que enfrentar a ausência de visão ou dificuldade de expressão ou locomoção.

Mas o que é mesmo inclusão? Para quem ela se destina e com que finalidade?

Tenho que reformular meu conceito e entender que inclusão não é para os outros, é em primeiro lugar para mim mesmo.

quinta-feira, 26 de março de 2009

PRA NÃO DIZER QUE NÃO FALEI... MAS NÃO DE FLORES

Algumas vezes as situações que a vida propicia fazem com que nos tornemos mais atentos a determinadas situações e acontecimento que, talvez de outra forma, passassem por nós de maneira despercebida.

Estes últimos dias, por conta de uma situação familiar bem especial, eu estou um poupo mais sensível e perceptível ao que está ao meu redor, principalmente àquilo que me é dito. Não nego que as palavras exercem sobre mim um fascínio e um encantamento únicos.

Dado o momento pessoal percebi e constatei, para meu espanto e surpresa, que algumas das frases que me foram dirigidas ultimamente não passaram de um amontoado de palavras vazias, ocas, desprovidas do real sentimento que elas deveriam expressar. Promessas, juras, votos, aspirações, desejos e anseios sem eles mesmos.

Mas o exercício do dizer é assim mesmo. Dito e remetido de uma forma, entendido e recebido de outra.

Desculpe meu desabafo, mas é que a constatação do vazio no dizer de alguns incomodou-me imensamente e tenho no escrever, no dizer no papel, no dizer numa tela de computador a oportunidade de um cateterismo nas veias entupidas de minha alma.

Felizes os que dizem com propriedade.
Bem-aventurados os que recebem palavras com conteúdo.

sábado, 3 de janeiro de 2009

É ÓBVIO, MAS NEM TANTO

Estes dias presenciei uma acalorada discussão entre dois adultos. O bate-boca foi crescendo quanto mais crescia a divergência entre as partes até que em um determinado momento um disse para o outro: “isto está óbvio, qualquer um pode ver.” E foi o ponto final.

Mas o que significa a palavra óbvio? O dicionário assim define como sendo o atributo ou a qualidade do que é evidente, fácil de compreender. Então posso dizer que o óbvio é óbvio e ponto final. Será?

Neste mundo em transição onde o que hoje é líquido e certo, amanhã, talvez; o que é tido como óbvio pode, alguma das vezes, impedir, atrapalhar, coibir e refutar qualquer outra avaliação ou análise ou parecer acerca de uma situação, fato, evento, acontecimento.

O óbvio só tem real significado e importância para a pessoa que o enxerga, muitas das vezes, de forma míope, desprezando qualquer outra visão ou opinião; fincando os pés na certeza de que um atestado de “obviedade”, individual ou coletivo, é ponto final, é elixir que soluciona questões, as vezes controversas, do cotidiano.

Volto a pensar na verborrágica discussão que testemunhei. Obviamente nenhuma das partes conseguiu o esperado consenso que, se esperamos pelo óbvio, seria o fim almejado.

Equilíbrio sem sempre tema ver com pré-conceitos que julgamos ser tão óbvios assim.