quinta-feira, 3 de junho de 2010

ECOS DA TECNOLOGIA

Estes dias enquanto caminhava pelas ruas quentes, abafadas, sujas e apinhadas de gentes, percebi como a vida as vezes parece ser tal qual um monólogo diante do espelho.

Muitas foram as avistadas almas a tagarelarem de si, para si, consigo mesmas, entrementes ao seu proprio caminhar. Ruidosa sinfonia de vozes a proferirem alguns grandes, longos e elaborados discursos, outros apenas simples afirmativas ou negativas, todos sempre carregados de forte expressão facial e corporal no interessante e único balé de braços, mãos, ombros e cabeça co-participantes desta verborrágica fluência.

Talvez este hábito - o de ´falar sozinho` - tenha raízes, motivo e causas mais profundas do que possamos supor. Tal fenômeno já tão comum neste século tem se agravado graças aos avanços tecnológicos que nos colocam cada dia mais diante de uma tela de computador onde as relações socias, antes reais e pessoais são substituídas por bits, bytes e cliques impessoais em um espaço virtual realmente inexistente e sob um www qualquer.

Nestes espaços eu não falo, digito; não ouço, leio; é uma máquina quem me atende, estou diante de uma máquina, falo a linguagem da máquina, me sinto uma máquina, sou tratado como uma máquina e assim, sem que eu perceba, vou sendo, aos poucos, treinado e preparado para uma vida o mais autônome e virtual possível.

A tecnologia que me auxilia e prepara para este mundo de múltiplas realidades e experiências ora reais, ora virtuais é a mesma que me isola, aprisiona e me faz refém dos ecos de minha própria voz muda diante de platéias surdas em uma esquina qualquer nestes dois mundos ora distintos, ora assemelhados.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

EU EM 14 LINHAS

Quem há de ouvir meu pranto?

Quiçá minha voz?
Eu canto.

Neste estribilho em verso e prosa,
permita-me perdido,
encontrar-te.

Escura é a tinta da caneta.
Fino é o traço no papel.

Culta é a norma,
assim ela informa:
da poesia, aprendiz;
na vida, ator;
aos teu olhos, poeta;
da tua vida, amor.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

ATRAÇÃO FATAL

Letras convidam letras

     e formam palavras.

Tuas palavras atraíram minhas palavras
     e assim, juntos, formamos frases.

Nossas frases se fundem,
     se complementam,
          as vezes divergem,
               se interpõem,
                    se reescrevem no prazeroso exercício da retórica da vida.

Misteriosa é a força da palavra.

Delicioso é este exercício de descerrar o véu do universo das letras e contemplar nas palavras tua alma de poeta.

à amiga Kely Cristina

sábado, 27 de março de 2010

É PÁSCOA...

Uma rua, uma casa simples, uma mãe, um menino e o vento.

Ele não conseguia entender o motivo de tanta agitação. Era época de festas mas nas ruas o constante vai e vem das pessoas indicava que algo diferente estava acontecendo.

De súbito um homem esbaforido e agitado aparece na esquina gritando e apontando nervosamente para o outro lado da rua.

Assustado com os gritos do homem, o menino corre para se esconder entre as pernas de sua mãe que, em pé, parece não acreditar no que seus olhos vêem. Rapidamente ela encobre com um lenço os olhos do seu assustado filho a fim de poupá-lo da cena que começa a se desenrolar na esquina da rua de sua casa.

Um grupo de pessoas visivelmente alteradas dirige palavras grosseiras para dois homens maltrapilhos que tem seus braços amarrados a grossas traves de madeira que carregam sobre os ombros. A dor das costas esfoladas por açoites não os impedem de, enquanto caminham, proferirem impropérios e maldições.

Tão rapidamente como surgiram na esquina, este alvoroço de gente segue seu caminho deixando para trás um menino ainda escondido atrás de sua bondosa mãe que esta na porta de sua casa simples em uma rua empoeirada. O vento se encarrega de levar para longe a poeira e o som das vozes dissonantes.

No silencio que se seguiu a mãe sente o filho a puxar-lhe o braço. Ela então se abaixa e ouve a seguinte pergunta:
- Mãe, quem era estes homens com a madeira nas costas?

A mãe responde:
- Estes são homens maus, que fizeram coisas muito ruins e por isso merecem morrer.

O menino então arregala bem os olhos, como que tomado de surpresa com a objetividade da resposta da mãe e exclama:
- Noooossa!!

A intimidade da conversa entre mãe e filho é então interrompida quando uma mulher, com a cabeça coberta por um véu e chorando profundamente, como a lamentar a própria sorte, passa correndo pela rua e diz:
- Ai vem Ele! Ai vem Ele!

Uma multidão de gente, homens e mulheres, de todas as idades, visivelmente alterados e enraivecidos, cercam e acompanham um homem que vai no meio deles cercado por uma escolta de soldados que pouco faz para o proteger da turba que, tomada por frenético êxtase e cruel frenesi, dirige palavras de ordem, fazem gracejos, acusações e vociferam toda a sorte de imprecações e maldições para o prisioneiro.

A mãe, mais uma vez, cobre o rosto do filho para que este não veja a abjeta cena de crueldade e desamor, mas o menino consegue se desvencilhar dos cuidados da mãe e se aproxima o máximo que pode da multidão e se estica todo para ver o homem que empurrado, chutado e cuspido pela massa de gente ensandecida, a passos trôpegos caminha em profundo silêncio. Nada diz. Nada responde. Mantém em sua aparência um ar da mais profunda serenidade mesmo diante da truculência com que é tratado pelos que o cercam.

Ele tem o rosto marcado e inchado de tantos socos e tapas. Na sua cabeça profundos cortes fazem fluir sangue que lava o rosto já desfigurado. As costas e os ombros estão com vários cortes profundos dos quais pendem pedaços de pele de músculo atestando ter o réu sido severamente açoitado.

Diferentemente dos dois primeiros, este carrega uma cruz inteira. Ela parece ser pesada demais. Os pés do acusado param. As pernas tremem. A turba raivosamente grita ainda mais. As profundas feridas nos ombros causam lancinante dor. Sente o peso da cruz. Cai.

Seu rosto ferido, suado e ensangüentado se mistura a poeira levantada pelos muitos pés que o seguem. Ninguém o consola, não há mão alguma que o ampare. Enquanto tenta se levantar sente-lhe arder as costas. É novamente açoitado. Todo o seu corpo treme de dor. Faltam-lhe as forças. Ele respira profundamente. Trêmulo, consegue ficar em pé. A cruz é jogada sobre os ombros e ele então retoma o caminho, lentamente dobra a esquina e segue... para a morte.

Em pé, assustado, olhos bem abertos, o menino passa a mão no rosto para tirar a poeira, esfrega as mãos na roupa e então vira-se para sua mãe e pergunta:
- E este mamãe, o que ele fez para merecer morrer?

A mãe, com lágrimas nos olhos, responde:
- Este, meu filho. Este nos amou primeiro.

BOA PÁSCOA!